28 Maio 2012

OS CORVOS DO VATICANO

Corvos raramente voam sozinhos, lembrou o jornal El Pais, da Espanha, numa referência aa possibilidade de mais prisões nesta semana, no Vaticano. A primeira foi a do mordomo do Papa, Paolo Gabriele, sob a acusação de furto de documentos secretos da Santa Sé. A papelada foi encontrada no apartamento dele, no Vaticano, onde ele mora com esposa e três filhos. Paolo era do círculo íntimo do Papa. Tinha acesso a lugares onde muitos cardeais não conseguem visitar. 
 
Trata-se de uma página aberta de um livro de muitas outras ainda fechadas para o público. Antes do roubo  ser confirmado, a  Imprensa que cobre o Vaticano fala há meses no acirramento de uma disputa por poder na cúpula da Igreja Católica. Na semana passada, o presidente do Banco do Vaticano, Ettore Gotti, perdeu o cargo. A instituição estava sendo investigada por lavagem de dinheiro e suspeita de vazar informações importantes para favorecer interesses particulares.  
Na última celebração que presidiu, o papa Joseph Ratiznger disse que "o vento golpeia a casa de Deus, mas o edifício cosntruído sobre a rocha não cai". Até quando ? 
Ainda não se sabe porque o mordomo decidiu fazer o que fez e o tamanho do estrago que poderia ser feito pelo que já é chamado de "Vaticanoleaks". A estrutura da qual Paolo Gabriele faz parte, porque ela existe e a benefício de quem são perguntas cujas respostas  alimentariam um roteiro muito mais interessante do aquele, já lugar comum, em que o mordomo é o culpado de tudo. 

27 Maio 2012

EUROTRASH - Eles também tem seu lado Teló


Mais de 150 milhões de europeus pararam em frente aa TV neste sábado pra ver um festival absurdamente cafona. O Eurovision é um concurso de música super antigo. Foi criado em 1956 pela European Broadcasting Union, uma espécie de associação de mídias do continente. Cada país manda um representante. Quem decide quem vai avançar na competição é o público, que vota pelo telefone. O público só não pode votar no próprio país. Quem vence tem direito de sediar a próxima edição do evento. 
Neste ano, a final foi fora da Europa, no Arzebaijão, país convidado que tinha vencido a edição de 2011. O ditador do país rico em petrodólares construiu, em menos de um ano, um super templo moderno pra impressionar o mundo com as imagens que vinham de Baku, a capital do país. Também mandou prender e calar a boca de quem tentou aproveitar a oportunidade pra protestar contra constantes violações dos direitos humanos no país. 
A edição desse ano foi vencida pela Suécia. Coincidência ou não, a cantora Loreen, que representou o país escandinavo na competição, foi uma das poucas a ter coragem de se encontrar com quem gritava por direitos básicos num Arzebaijão onde sobra dinheiro, mas falta liberdade. 
Nenhuma das canções me convenceu. Nem mesmo a de Loreen. Mas se foi um recado dos europeus ao governo arzebaijão, o troféu está em excelentes mãos. 
Veja abaixo a apresentação de Loreen, na final do Eurovision 2012

18 Maio 2012

CLUBES DE SP E RIO SÃO OS PREFERIDOS POR 19,6% DOS PARLAMENTARES DE MINAS





Pesquisa feita pelo blog do jornalista Fernando Rodrigues revelou as preferências futebolísticas dos parlamentares brasileiros. Interessante notar que o único estado em que deputados e senadores são 100% fiéis aos seus times é o Rio Grande do Sul. Quem conhece os gaúchos não fica tão surpreso assim. Famosos pelo bairrismo, os mineiros do Congresso (53 deputados e 3 senadores) não são tão fiéis assim quando o assunto é futebol.  
Vinte e um parlamentares revelaram que torcem pelo Cruzeiro. Quinze preferem o Atlético. Dois são torcedores do América. O Uberaba, o Guarani de Divinópolis e o Olimpic de Barbacena também foram  lembrados uma vez cada. No caso do Olimpic, o time divide o coração do deputado Bonifácio Andrada, do PSDB, com outras três equipes: Cruzeiro, Fluminense e Santos. Mário de Oliveira, do PSC, afirmou que torce apenas pela Seleção Brasileira. Padre João, do PT, disse que não torce pra nenhum time. O deputado João Bittar, do DEM, foi o único entre os mineiros a não responder. 
Revelador foi o fato de onze parlamentares torcerem pra times de outros estados. Veja a lista dos mineiros que não torcem para as equipes mineiras. 

Walter Tosta/ PSD - Vasco 
Luiz Fernando Faria/PP - Botafogo
Júlio Delgado/PSB - Fluminense
Lael Varella/DEM - Flamengo 
Renzo Braz/PP - Fluminense 
João Magalhães/PMDB - Vasco 
Aracely de Paula/PR - São Paulo 
Dr. Grilo/PSL - Flamengo 
Gerado Thadeu/PSD - Corinthians
Gilmar Machado/PT - Botafogo
Vitor Penido/DEM - Vasco 

Vitor Penido que, segundo o blog de Fernando Rodrigues, declarou torcer para o Vasco já foi presidente do Villa Nova, da cidade de Nova Lima, um dos times mais tradicionais de Minas. O estádio Castor Cifuentes foi apelidado pelo próprio, quando era prefeito da cidade, de Penidão.
Minas é um resumo do país até nesse aspecto. 59% dos parlamentares, segundo Fernando Rodrigues, torcem para times cariocas ou paulistas. 
Cada um torce, claro, pra quem quiser. O futebol é e deve ser uma festa democrática. Paixão é paixão. Desempenho como parlamentar é outra coisa. Mas não custa lembrar que o futebol brasileiro movimentou 11 bilhões de reais em 2010, de acordo com os últimos números disponibilizados pela Fundação Getúlio Vargas. Esse valor, segundo a FGV, poderia ter sido maior e os benefícios para a população como um todo muito mais amplos se houvesse uma exploração mais eficiente. Aí sim poderia entrar o trabalho de um deputado. 
Parabéns ao Vasco, Botafogo, Fluminense, Flamengo, São Paulo e Corinthians, que têm a torcida e, quem sabe, a ajuda de quase vinte por cento da bancada de Minas. 


Abaixo, segue o link para a lista completa da pesquisa, feita pelo blog do Fernando Rodrigues. 
http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/files/2012/05/times_congressistas-Sheet1.pdf




26 Abril 2012

OS MUROS DA IRLANDA DO NORTE - o que não deu pra contar na TV


Tem tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo que quase não tenho tido tempo pra passar por aqui, deixar os registros de algumas reportagens e contar neste espaço minhas impressões e o que não deu tempo de contar na TV. Belfast não poderia passar em branco em Argumento.
Viajar pra Irlanda do Norte é como voltar ao tempo: um tempo em que as pessoas eram mais simpáticas, mais atenciosas, a ponto de te cumprimentarem na rua. Quem vive numa cidade hostil como Londres, tende a se desacostumar com isso.
Pra quem não se lembra, a Irlanda do Norte fica, claro, no norte da ilha que é quase toda da República da Irlanda, a única parte dessas ilhas que não dá a bênção ao governo britânico e a Rainha da Inglaterra.


O voo entre Londres e Belfast dura menos de uma hora e não existe imigração, já que você está viajando dentro do Reino Unido. Logo na chegada, o motorista de táxi nos avisa: "Essa é uma área protestante". Cinco minutos depois, ele completa: "Essa aqui é católica".  Foi a segunda e mais profunda sensação de volta ao tempo. Eles ainda vivem e levam a sério essa segregação religiosa, que teve início séculos atrás. A cidade tem mais de noventa muros, como o da primeira foto e portões, como esse que segue abaixo.


Há vários católicos que dizem ter amigos protestantes e vice-versa, mas na hora de conviver mesmo, eles se separam. A maior parte das escolas ainda é exclusivamente para uma religião ou outra. Muita coisa na vida deles é decidida de acordo com o lado em que estão. Seria fácil concluir que eles são um povo extremamente religioso, mas o pior é que não são. Vi várias igrejas - protestantes e católicas - fechadas em Belfast, como essa aí, bem perto de um dos muros. Uma delas tinha até uma plaquinha de aluguel. E quem alugaria uma igreja num lugar desses ?  



O que divide o povo da Irlanda do Norte não são as crenças diferentes, mas o fato de terem aspirações diferentes como cidadãos de um país de duas identidades. Em termos gerais, a maior parte dos protestantes (muitos de origem inglesa) é a favor do alinhamento da Irlanda do Norte com a Inglaterra, como é hoje.  Eles tem alguma autonomia administrativa, mas a economia, a política externa e boa parte da saúde e educação são controlados pelo governo central do que é chamado de Reino Unido. Já a maior parte dos católicos é a favor de um alinhamento com a Irlanda, que também é de maioria católica e que não faz parte do Reino Unido. Mas hoje, com a Irlanda em sérios problemas econômicos, muitos engoliram o orgulho em troca de uma insegurança menor. 
Eles brigaram durante muito tempo. Foi dessa briga que surgiu o IRA, Exército Republicano Irlandês, que frequentou muito os noticiários nas décadas de 80 e 90 com os ataques a alvos britânicos. O que restou de uma guerra que deixou quase 4 mil mortos foi uma desconfiança absurda entre um lado e outro. Perguntei a várias pessoas se elas se sentiam confortáveis com aqueles muros e portões dividindo a cidade ao meio e a resposta, quase sempre, era que se sentiam "mais seguros". O medo ainda está presente nas ruas de Belfast. Juntamente com ele, vem um ódio quase genético. Numa conversa com um grupo de garotos, perguntei porque um deles - católico, 14 anos - não gostava dos protestantes. Ele me disse que não sabia. Apenas não gostava. 
Fato é que, concordando ou não, todos os católicos acabam aderindo a certas posições políticas, assim como acontece do outro lado.  Os católicos apóiam tudo o que a Inglaterra não apóia. Em um dos muros, há a foto dos cinco cubanos presos nos Estados Unidos, acusados de espionagem. Nesse episódio, o fato dos ingleses apoiarem os norte-americanos determina quem vai receber o apoio dos republicanos da Irlanda do Norte. 



O interessante é que esse "ódio" tá virando rota turística. Os "black cabs" (táxis pretos) de Belfast passam boa parte do dia rodando com turistas e contando o que foram os "The troubles"(Os problemas), como ficou conhecida a guerra entre católicos e protestantes. Claro que o roteiro vai depender da religião do motorista, embora os black cabs sejam dominados pelos católicos. 
A coisa ainda é tão séria que o motorista que nos levou a alguns pontos pra gravarmos a reportagem não desceu na área protestante. Ele era católico e tinha medo de ser hostilizado. Mas como se sabe que alguém é católico ou protestante? Sinceramente, eu não saberia explicar a diferença. Mas eles sabem. Parece que o olhar entrega em que lado eles estão. Fora isso, tem os nomes. O nosso motorista Patrick, por exemplo, tem um nome tipicamente católico. Patrick, Patrício, santo, igreja... e assim eles vão formando uma teia de informações pra saber se estão diante de um inimigo ou de um aliado.  Muitas famílias norte-irlandesas optam por nomes que não entreguem a origem pra facilitar a vida dos filhos. A recepcionista do hotel onde ficamos se chama Bonita. Nome latino que, pra eles, levanta dúvidas e curiosidade, antes de levantar suspeitas.



No fim da viagem, fizemos um bate-vola a Derry (foto acima), cidade que fica a 100 quilômetros de Belfast, que foi palco do domingo sangrento, que inspirou aquela famosa música do U2, banda irlandesa que transformou a tragédia em música e em muito dinheiro. Nessa cidade, onde 14 pessoas morreram em 1972 (6 menores, inclusive), um museu foi aberto só pra lembrar o episódio. 


Recentemente, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, reconheceu a culpa dos ingleses no episódio. Foi a primeira autoridade do Reino Unido a pedir desculpas oficiais pelo que se passou. Mas em Derry, as feridas ainda são muito profundas. Parte das famílias sequer deve aceitar a indenização oferecida pelo Reino Unido. A luta agora é pra punir, mesmo quarenta anos depois, os militares que atiraram indiscriminadamente e mataram um grupo que estava desarmado. 
Na Irlanda do Norte, o passado ainda tá no presente. Pra quem gosta de livros de história ao vivo, é um prato cheio. 

10 Abril 2012

INDIA, bastidores de uma viagem.




O primeiro sentimento que tive ao chegar a Nova Dehli foi o de frustração. Não por causa dos indianos. Mas por conta do Brasil. O Aeroporto Internacional Indira Gandhi (foto ao lado) é espetacular: grande, funcional, bonito, claro, tudo o que os brasileiros não são. Quase me esqueci do cansaço da viagem de quase nove horas entre Londres e a capital indiana.  Mas já na porta do aeroporto de primeiro mundo, a Índia se revela assustadoramente grande, cheia e confusa. Há modelos novos, mas a maior parte dos táxis é velha. O trânsito é super caótico, mas, justiça seja feita, funciona. Há uma engenharia naquele caos que cérebros de fora não conseguem captar. O segundo país mais populoso do planeta, com 1,2 bilhão de habitantes, é um show de cores. Entre um deslocamento e outro, aproveitei pra fazer algumas fotos, como essa de uns temperos vendidos numa feira livre onde gravamos parte de uma reportagem. 


Coberturas presidenciais são sempre muito corridas. Sobra pouquíssimo tempo pra ver o país onde estamos. Geralmente, temos que chegar ao lugar onde a presidente vai estar bem antes dela. E, claro, saímos depois. Só pra fazer a imagem da foto oficial dos cinco presidentes, cinegrafistas e fotógrafos 
foram colocados no lugar onde eles deram um tchauzinho pro mundo três horas antes das autoridades chegarem. E não dava nem pra sair pra tomar um copo d'água. Ou se perde o lugar estratégico pra fazer a imagem ou os seguranças não permitem mais voltar. Entre o certo e o duvidoso, nós sempre temos que fazer a primeira opção. 
Na Índia ainda havia uma neura nacional com segurança. Em alguns momentos, a preocupação era até exagerada. Num único dia, eu passei por 19 revistas. Numa delas, o segurança não queria deixar que eu entrasse com um jornal. Isso mesmo, papel !!! Custei a convencê-lo de que o noticiário do dia não oferecia o menor perigo. Acabou dando certo. Pra entrar com equipamentos, é preciso fazer todos funcionarem na frente deles, inclusive as máquinas fotográficas. Olha aí a foto de um dos seguranças. 

Após os seguranças, a rotina da imprensa é esperar, esperar, esperar... até que apareça um ministro ou um empresário que passe alguma informação interessante. E no governo Dilma, isso é sempre muito difícil. Brava, a presidente não permite que os ministros fiquem jogando conversa fora. Aliás, com o perdão da falta de diplomacia, os discursos nesses eventos são chatíssimos. Salvo raras exceções, que felizmente existem, são de dar sono. Num deles, enquanto a presidente repetia um discurso conhecido, de mais de meia hora, pelo menos dois ministros deram suas "pescadas". O primeiro-ministro da Índia também fechou os olhos. E não me pareceu uma meditação momentânea. Em Nova Dehli, a presidente ainda concedeu uma descontraída entrevista coletiva que, por culpa de nós jornalistas, acabou focada num economês e num diplomacês que interessam apenas a empresários e economistas. Fala-se muito no macro e se esquece do micro, aquilo que tem a ver diretamente com a maior parte da população brasileira.

A parte mais interessante acaba sendo nos deslocamentos de um lugar pra outro. É assim que vemos as cores, os rostos e a personalidade da Índia. Logo no primeiro contato, achei os locais extremamente simpáticos, bem mais, aliás, que os indianos que moram aqui em Londres. Em feiras livres, eles fazem marcação cerrada pra vender. Foi inevitável a comparação com alguns países árabes, onde a arte de vender também é levada muito a sério. A diferença é que, ao contrário dos árabes, os indianos são mais respeitosos, apesar de insistentes. O problema da violência existe, segundo me contaram alguns moradores. Mas não tive essa sensação em Nova Dehli, nem mesmo quando saímos tarde da noite pra jantar. 
Bem próximo ao Parlamento, onde também gravamos parte de uma reportagem, há um gramado enorme,
onde milhares de indianos aproveitam o entardecer. É tudo sempre muito colorido....
... um lugar pra curtir um pouco a preguiça. Por que não ? 

Nosso transporte principal em Nova Dehli foi esse aí:



Numa das noites, procurávamos um cenário bonito pra gravar parte da reportagem. O motorista do Tac Tac nos levou a um templo hindu, que fica no centro de Nova Dehli. É um templo dos sicks, aqueles que usam turbante, não bebem, não fumam, não cortam a barba e nem o cabelo e são vegetarianos. Claro que há exceções nessa regra. No pouco tempo em que estivemos lá, tivemos de tirar os sapatos e lavar os pés pra entrar num lugar onde um grupo de homens canta noite e dia uma espécie de mantra. É um lugar interessantíssimo, onde pobres e ricos tem os mesmos direitos e os mesmos deveres. Essa é uma das histórias que deixei pra trás, sem tempo de contá-la melhor. A foto ao lado foi tirada de um celular. Apesar de imagens serem liberadas, não me senti a vontade (nem tinha muito tempo!) pra fotografar aquelas pessoas num momento que exige tanto respeito.



No último dia de viagem, quando quase viramos 24 horas trabalhando, o nosso destino foi Acra, onde fica o Taj-Mahal. 

Se o monumento, construído no século XVII pra ser o túmulo da esposa de um Imperador já é sensacional, o caminho até ele é ainda mais interessante. Antes do caminho, um detalhe me chamou a atenção. Há preços diferentes para turistas estrangeiros, que pagam mais caro. São 750 rúpias, o equivalente a 26 reais. Por conta disso, os indianos têm que enfrentar filas que os estrangeiros não enfrentam. A placa a seguir é a prova dessa segregação. 

Nessa outra placa, o aviso é o seguinte: "Entrada somente para os tickets com valor mais alto". É ótimo não enfrentar filas, principalmente num país com tanta gente. O difícil é se sentir uma espécie de "gringo adinheirado e privilegiado". Isso não foi bacana. 

Como eu dizia antes, o caminho até o Taj Mahal é um banho de Índia, mas que tem sim suas armadilhas. Todos os guias param propositadamente num canteiro central onde dezenas de indianos aparecem com macacos treinados pra fazerem o turista rir. Uma vez alegre, o sujeito é intimado a dar algumas rúpias pela "diversão". Claramente, os macacos são mal tratados. 

Tirando essa parte extremamente contaminada pelo que há de pior no turismo, o resto da viagem é recheada de cenas interessantes. É um banho de Índia. E dá pra ver outros animais, livres e exuberantes, como esse pássaro. 

O detalhe é que a viagem de 220 quilômetros costuma durar até sete horas ! Pela foto abaixo, fica fácil entender o porquê. 


É o caos que, aparentemente, funciona. Atrasa todo mundo, mas funciona. 


Num país com tanta gente, não é difícil encontrar os tac-tacs, motos convertidas em pequenos veículos e com duas rodas atrás, completamente lotados. 

E a vaca ? Sim, ela é sagrada e ninguém a ameaça, nem mesmo em lugares onde a fome é um problema.

Outra cena que me chamou a atenção é o carinho com que os homens se tratam na Índia. A cena abaixo é de um grupo de estudantes que visitava o Taj-Mahal. 

E a próxima cena é de dois amigos, que jogavam conversa fora. Homens de mãos dadas também podem ser vistos com muita frequência nos países árabes.

Na Índia, até a pobreza tem um lado místico. Claro que quem não sofre com ela, como eu, vê isso mais facilmente. A foto a seguir é de um indiano que tomava banho e lavava suas roupas numa espécie de tanque público. O país ainda tem 40% da população vivendo abaixo da linha da pobreza. Eram 60% na década de 80. Assim como o Brasil, eles também conseguiram aumentar a classe média, mas ainda tem um caminho enorme pela frente, talvez mais complicado que o do Brasil. 

Esses são só alguns detalhes que não tem a menor pretensão de resumir a história de um mundo grandioso como é a Índia. Pra quem gosta de se aventurar, de ver uma sociedade funcionando com outra engrenagem, vale muito a pena. 

09 Abril 2012

DR. LUND - A história do Brasil no depósito de um museu.




Foi na Escola Dr. Lund, que fica na praça Dr. Lund, em Lagoa Santa, no interior de Minas, que eu fui alfabetizado e apresentado ao dinamarquês que a minha então pequena cidade fazia questão de lembrar. Um das lembranças mais marcantes é a de uma professora falando do "Homem de Lagoa Santa", uma importante descoberta, cuja real dimensão eu só descobri depois, fora da escola. 
Lund foi pra lá no século XIX. Imagine um sujeito, lá pelas bandas de 1800, que chega a uma cidade, que então tinha menos de mil habitantes, pra colecionar ossos. Facilmente, ele virou o esquisito do lugar. Esquisitice e persistência fizeram com que esse dinamarquês contrariasse teorias científicas até então vigentes e tivesse um papel absurdamente importante no desenho do que foi o nosso passado. 
Desde pequeno, eu sonhava em conhecer a Dinamarca e dizer pro pessoal de lá que eu era da cidade do Lund, que eu sabia parte da história deles, que a minha Lagoa Santa e o país deles tinham uma conexão interessante e que até a Rainha deles tinha ido lá, visitar o túmulo do Lund. 
A Dinamarca virou realidade neste fim de semana. Não havia estátuas de Lund, nem escolas e ruas com o nome dele, como há na minha cidade.  Nem nenhum dinamarquês que eu encontrei - lá ou em outras partes do mundo - sabia da existência do compatriota. Mas um lugar em especial haveria de mostrar o orgulho do país por ele: o Zoological Museum, onde está a maior parte das descobertas dele, inclusive o famoso Homem de Lagoa Santa. 
O funcionário do museu foi o primeiro e único dinamarquês com quem conversei que sabia quem foi Peter Lund. Me disse que no fundo do quinto e sexto andares talvez eu pudesse encontrar algo sobre ele. "Como assim, no fundo ?", pensei. Subi pelo elevador pra diminuir o tempo entre meus olhos e aquela imagem, que eu me prometia desde a infância. Procurei muito e nada. 
Toda a coleção de Lund está guardada, no depósito. Não há nenhuma menção a ele, aos importantes trabalhos e descobertas que ele tinha feito e, sequer, sobre o Brasil, Minas Gerais ou Lagoa Santa. As duas únicas peças são descritas apenas como sul americanas.



Pra quem não conhece tanto essa parte da história, eu sugiro um trabalho belíssimo feito pela Rede Minas, sobre o pai da Paleontologia Brasileira. Segue aqui o capítulo 1. 



E agora o capítulo 2. 


Esse é um dos melhores trabalhos que já vi sobre esse personagem tão importante para a ciência e para o Brasil. Pena que o espaço a ele reservado esteja no depósito do Museu de Copenhague, fato, aliás, que o documentário não explica o porquê. O difícil mesmo é concluir que em um depósito a história de Lund talvez esteja melhor preservada do que se estivesse com os que vivem no lugar que transformou a vida dele e do mundo científico. 


02 Fevereiro 2012

RETRATOS DA CRISE - a Itália e o padre de batina sofisticada


Eu me preparava pra fazer uma gravação perto de uma das milhares de esculturas espalhadas pela belíssima capital da Itália. Era um daqueles romanos, com o queixo apoiado na mão e o olhar pra baixo, imagem que casava bem com o atual momento de preocupação dos italianos. 
Estávamos bem pertinho do Vaticano. Um padre se aproximou e perguntou o que fazíamos. Ele não era um padre "qualquer". E deixou isso claro no tom de voz que usou. Quando respondemos que gravávamos uma reportagem sobre a crise, ele disse rapidamente que "a crise era uma mentira" e que "era pura jogada de especulação do mercado financeiro". Ele não estava totalmente errado nas causas. Mas estava cego em relação as consequências. A crise que ele não via afeta milhões de europeus, muitos dos quais ajudam a pagar o terno-batina impecável que ele usava. 
Ele aceitou dar uma entrevista. De maneira muito perspicaz, a produtora Rosse Forle, que trabalhou comigo em Roma, fez algumas ponderações iniciais e, depois, perguntou muito educadamente o que ele achava das reivindicações cada vez mais frequentes pra que o Vaticano começasse a pagar impostos. Naquele momento, o homem que fez questão de mostrar que não era um padre qualquer se transformou numa espécie de empresário. Disse que os Impostos eram pagos sim e que o Vaticano não devia nada a ninguém. Terminou afirmando que trabalhava na Administração do Vaticano e sabia muito bem o que estava falando. Infelizmente, um problema técnico inviabilizou essa entrevista. Mesmo se ela não tivesse sido perdida, eu não poderia identificar aquele religioso, que se negou a dizer seu nome e foi embora, nos lançando um olhar frio, que até combinava com a roupa que ele usava, mas não com alguém que faz voto de pobreza e fala em nome de Deus. 
Se demos azar com a entrevista do padre sem  nome e de batina sofisticada, o destino nos presenteou com um fato que tinha tudo a ver com a matéria que gravávamos. No momento em que estávamos no Vaticano, presenciamos e gravamos uma manifestação de jovens europeus em plena Praça São Pedro. Entre outras coisas, pediam pra que a Santa Sé começasse a pagar impostos. De maneira diferente daquela turminha anti-capitalismo, várias pessoas se manifestaram a favor daquela reivindicação, inclusive um frei brasileiro, a quem eu devo desculpas pela brutal insistência pra que ele se posicionasse diante da minha câmera. Claramente, ele tinha medo de retaliações. Mas esse medo - naquele momento e nesse assunto específico - não poderia existir. "Vocês são referência pra milhões de pessoas. É claro que vocês tem que se posicionar", insisti. Ao contrário do padre de batina sofisticada, ele se posicionou a favor de uma maior contribuição do Vaticano nesse momento de crise na Europa. "Todos tem que ajudar", me disse. 
A lição que os italianos (e quem sabe o Vaticano) terão de aprender agora é a que eles e outros europeus sempre disseram ao mundo pra fazer: gastar com responsabilidade. Os anos de gastança do polêmico primeiro-ministro Sílvio Berlusconi não causaram muita reação na sociedade italiana porque boa parte tinha (e ainda tem) um vidão! Compravam do bom e do melhor, viajavam, pegavam empréstimos a perder de vista nos bancos, dirigiam carrões. A conta agora chegou. A dívida da Itália corresponde a 120% do PIB deles.  Muitos já começaram a se perguntar: e agora ? Cadê o nosso champagne ?

Segue aí a reportagem que foi ao ar:







01 Fevereiro 2012

RETRATOS DA CRISE - quando a câmera oficial pode ficar de lado

Um dos pontos mais interessantes de trabalhos como o que fazemos na série "Retratos da Crise" é o uso de linguagens alternativas. Em caminhadas por Lisboa, Madrid, Roma e Atenas, o celular, que faz imagens em alta resolução, foi um grande aliado. Além do fácil manuseio, ele ainda me proporcionou uma proximidade maior com as pessoas que encontrei pelo caminho. Câmera, luz, tripé e microfone as vezes criam uma ambiente que deixa o entrevistado recuado. 
Foi com o celular que entrevistei alguns taxistas, colhi depoimentos fortes como o do recém-morador de rua de Lisboa e parte das manifestações na Praça São Pedro, no Vaticano, onde as câmeras não eram permitidas, sem a devida e formal autorização da Santa Sé. Numa situação dessas, poucas pessoas pensam que você representa uma grande emissora de televisão. Esse anonimato e essa discrição foram essenciais pro desenvolvimento da produção. Por experiência própria, muitos entrevistados simplesmente desistem ou recuam quando pedimos o momento pra preparar o equipamento para a gravação. Com o celular, é menos difícil. 
Em São Paulo, editores, como a Viviana Macedo e o Denys Urdiale, que assinam a série comigo, além do Departamento de Arte, criaram um conceito visual pra que a imagem fosse bem utilizada e não fosse confundida com a imagem de uma câmera normal. A intenção era mesmo dizer a quem via como estávamos gravando. 
Pra fotografar, prefiro a minha velha máquina. Ela sempre faz parte da minha bagagem e sempre me dá resultados interessantes.  Nessa série, eu já viajei com um propósito: fazer fotos emblemáticas, mas que tivessem um espaço vazio no quadro pra que os editores e arte pudessem trabalhar em cima deles. Olha um exemplo aqui. O cardápio, que um garçon de Lisboa me mostrava, serviu de base pra colocarmos a quantidade de restaurantes fechados em Portugal por conta da crise. 

 Em todas as reportagens, usamos esse recurso e geralmente, sem um texto em off pra acompanhar. Na matéria da Espanha, por exemplo, usamos a foto de uma jovem sentada num banco, que eu fiz em Madrid, pra dizer o seguinte: "23% dos espanhóis estão desempregados". A foto era emblemática. Os números eram fortes por si só. Minha voz, nesse caso, pouco acrescentaria. 
O grande barato de fazer um trabalho como esse com uma turma tão vibrante quanto o pessoal com quem eu felizmente divido a labuta de todos os dias é poder experimentar. E não se trata de experimentalismo por experimentalismo. Poucas vezes, usamos tanto o twitter, o Facebook pra abrir discussões, fazer a divulgação da série e levantar a necessária demanda de que os brasileiros precisam saber mais sobre outros povos.  
Hoje, a reportagem é sobre a Itália. Assim que tiver disponível, eu posto o link aqui. 

31 Janeiro 2012

RETRATOS DA CRISE - Espanha, desemprego e a Família Plaza


Do lado de fora de um prédio onde a Igreja Católica distribui comida, eu abordei um homem que tentava entrar sem ser notado pela câmera. Ele usava bons sapatos e um paletó, que o faria parecer um executivo se não tivesse os cabelos despenteados e uma sacola plástica na mão. Era a senha que o colacaria, como todos os outros, na fila que se formava no pátio interno. Eu o abordei e o disse que era um jornalista brasileiro e estava em Madrid pra fazer uma reportagem sobre a crise financeira. Naquele lugar -  eu explicava cuidadosamente de modo a não constrangê-lo -  tentava conversar com pessoas que foram vítimas do que se passava na Espanha. Fui muito cuidadoso, mas despertei nele um sentimento que eu não esperava: 
"Porque você me pergunta sobre pobreza ? Você é que entende de pobreza !", me disse de forma muito áspera, antes de me dar as costas e seguir com a sacolinha que, mais tarde, estaria cheia com alimentos doados. Eu poderia ter reagido, como sempre faço quando tenho argumentos. Mas me dei conta de que aquela má resposta era sinal de desespero que, naquele momento, eu tinha que respeitar. 
Na reportagem sobre a Espanha, eu usei algo que tenho ouvido nos últimos tempos e que me chamou muito a atenção em Madrid: a riqueza se expõe, se exibe. Já a pobreza esconde a cara de vergonha. Essa lógica não vale muito no Brasil, mas na Europa sim. Os espanhóis são tão orgulhosos que, mesmo em tempos de crise, há várias lojas fechadas na hora do almoço. Mas como em um país em crise, atolado em dívidas, com o maior índice de desemprego da Europa, alguém se dá ao luxo de fazer a siesta ? Não encontrei outra resposta a não ser orgulho. 
Madrid está repleta de lojas fechadas. Não para o almoço. Fecharam porque os clientes sumiram mesmo. E se os clientes somem, some também o trabalho. E sem trabalho, as pessoas começam a entrar em desespero. 
Foi difícil registrar o choro de Césare, o filho do meio da família Plaza, que gentilmente me abriu as portas da casa deles, em Madrid, pra me contar a triste história de três filhos que perderam o emprego e passaram a depender dos pais. Aos vinte e poucos anos, isso tem um sentido. Aos 38, 40, tem outro completamente diferente. É sempre difícil decidir até onde gravar, até onde ir. O choro é uma informação importante, extremamente emblemática para um país que, até pouco tempo atrás, deportava professores universitários brasileiros, colocando-os na lista de suspeitos de imigração ilegal. Hoje, quem diria, o Brasil é que pode ser a salvação de muitos espanhóis. 
Na casa da família Plaza (ao meu lado na foto acima), assim como em milhões de lares do país,  não havia "jamon", uma espécie de presunto (muito melhor do que aquele que se vende nos supermercados do Brasil) que faz parte da dieta básica do espanhol. O "jamon" está para os espanhóis assim como arroz com feijão está para o brasileiro. A crise interferiu diretamente na mesa desse povo.  Fiquei comovido e imensamente agradecido pela confiança e carinho com que aquela família me recebeu. Eles tinham todos os ingredientes pra seguirem o caminho de milhares de outras famílias e se desestruturarem completamente. Mas me pareceram unidos em torno de uma dignidade que os fazem imbatíveis. 
Muitos jovens espanhóis também pensaram a vitória seria fácil. Cresceram num país de primeiro mundo, estudaram em boas escolas. Mas na hora H, faltou o principal: o emprego. Alejandro Alonso, produtor que trabalhou comigo na Espanha, me contava que a atual juventude espanhola é, de longe, a mais preparada que o país já teve. Ironicamente, é a que tem menos oportunidades. Na população de 19 a 24 anos, o índice de desemprego é de 51 %! 
Há quase um ano e meio, eu cheguei a Madrid pra cobrir o fim da Copa do Mundo e registrar a incrível festa que milhões de espanhóis fizeram pra receber os campeões mundiais. Há duas semanas, o clima era de rebaixamento. Não sei como eles vão sair dessa. 

Abaixo, segue a reportagem pra quem quiser assistir:




RETRATOS DA CRISE - Portugal

Cheguei a Lisboa na noite de uma segunda-feira. Pra quem mora fora do Brasil, ouvir português - mesmo que com o sotaque luso - é como chegar em casa. Mas antes que o sorriso ganhasse forma no meu rosto, fui bombardeado por um arsenal de reclamações. Tá certo que o bom humor nunca foi uma das principais características deles, mas nessa minha quinta visita ao país que nos presenteou com esse idioma tão bacana o que ficou marcado foi o lado desiludido do dicionário. 
Do aeroporto pro hotel, foram tantos lamentos que eu nem me dei conta que desci no hotel errado. Peguei outro táxi a e história era ainda mais pesada. Eram dez da noite. Pedro, o taxista que me levou pro hotel certo, ia trabalhar até as sete da manhã pra, então, buscar a moto, fazer trabalhos de entrega durante todo o dia seguinte pra recomeçar com o táxi na próxima noite. "Dormir só quando dá", me disse. Ele é um dos milhares que não conseguiram continuar pagando a casa própria. Devolveu o apartamento pro banco e voltou pra casa dos pais. Não foi só uma derrota financeira o que tecia o enredo dessa história. Era uma derrota pessoal o que vi nos olhos dele. 
Cheguei ao hotel e saí pra caminhar. Na lanchonete, o atendente - um estudante universitário - me dizia que não sabia até quando o patrão dele o manteria no emprego. O pastelzinho de belém, de nata, o cafezinho... tudo tinha ficado mais caro. O IVA - imposto que incide sobre quase tudo em Portugal - tinha sido reajustado para o setor da "restauração", que pra eles, é o setor de restaurantes. (Custei a entender isso. No início, achei que eram as restaurações de monumentos históricos, etc !) O primeiro impacto na restauração portuguesa foi um tsunami sobre os restaurantes do país. Dez fecham todos os dias, segundo os dados da Associação Nacional do setor. Ainda com o gosto de café na boca, encontrei dois homens, que improvisavam uma cama de papelão na porta de uma agência bancária. Eram dois Joãos, com quem passei quase uma hora conversando. Poderia ser mais um casal de mendigos, como se costuma muito ver no Brasil e cada dia mais na Europa, mas a história deles também era comovente. Na mendigância, eles estavam há pouco tempo: três meses, um, seis meses, outro. Ambos trabalhavam na Espanha, no setor de construção civil. Ficaram desempregados, não tinham dinheiro guardado e, pra piorar a situação, percebi neles um orgulho absurdamente grande que os impediam de pedir ajuda a amigos ou familiares. Não me pediram, mas eu deixei uma nota de dez euros pra que eles tomassem um café da manhã. Numa situação normal, não dou dinheiro a quem entrevisto. Evito o máximo que posso. Mas ali, no meio daquela noite fria e depois de ouvir aquilo tudo, não consegui. 
As primeiras horas em Lisboa já me mostraram quão forte seria essa série de reportagens. Mas queríamos mais do que se vê nas ruas. Queríamos ver o que se passava e o que tinha mudado na vida das pessoas. Foi por isso que tomamos uma decisão - muito acertada, ao meu ver - de contratar um profissional em cada país que estivemos. Foram eles que me levaram nos lugares certos num tempo muito pequeno e que abriram as portas das casas dos europeus pra que eles me falassem de um assunto tão delicado. Nesse trabalho em Portugal, minha companheira foi a Susana Mota, uma portuguesa belíssima, muito trabalhadora e paciente. 
Lisboa continua linda e Portugal tem pela frente um dos piores momentos de sua história.  

Abaixo, a reportagem: