O primeiro sentimento que tive ao chegar a Nova Dehli foi o de frustração. Não por causa dos indianos. Mas por conta do Brasil. O Aeroporto Internacional Indira Gandhi (foto ao lado) é espetacular: grande, funcional, bonito, claro, tudo o que os brasileiros não são. Quase me esqueci do cansaço da viagem de quase nove horas entre Londres e a capital indiana. Mas já na porta do aeroporto de primeiro mundo, a Índia se revela assustadoramente grande, cheia e confusa. Há modelos novos, mas a maior parte dos táxis é velha. O trânsito é super caótico, mas, justiça seja feita, funciona. Há uma engenharia naquele caos que cérebros de fora não conseguem captar. O segundo país mais populoso do planeta, com 1,2 bilhão de habitantes, é um show de cores. Entre um deslocamento e outro, aproveitei pra fazer algumas fotos, como essa de uns temperos vendidos numa feira livre onde gravamos parte de uma reportagem.

Coberturas presidenciais são sempre muito corridas. Sobra pouquíssimo tempo pra ver o país onde estamos. Geralmente, temos que chegar ao lugar onde a presidente vai estar bem antes dela. E, claro, saímos depois. Só pra fazer a imagem da foto oficial dos cinco presidentes, cinegrafistas e fotógrafos
foram colocados no lugar onde eles deram um tchauzinho pro mundo três horas antes das autoridades chegarem. E não dava nem pra sair pra tomar um copo d'água. Ou se perde o lugar estratégico pra fazer a imagem ou os seguranças não permitem mais voltar. Entre o certo e o duvidoso, nós sempre temos que fazer a primeira opção.
Na Índia ainda havia uma neura nacional com segurança. Em alguns momentos, a preocupação era até exagerada. Num único dia, eu passei por 19 revistas. Numa delas, o segurança não queria deixar que eu entrasse com um jornal. Isso mesmo, papel !!! Custei a convencê-lo de que o noticiário do dia não oferecia o menor perigo. Acabou dando certo. Pra entrar com equipamentos, é preciso fazer todos funcionarem na frente deles, inclusive as máquinas fotográficas. Olha aí a foto de um dos seguranças.

Após os seguranças, a rotina da imprensa é esperar, esperar, esperar... até que apareça um ministro ou um empresário que passe alguma informação interessante. E no governo Dilma, isso é sempre muito difícil. Brava, a presidente não permite que os ministros fiquem jogando conversa fora. Aliás, com o perdão da falta de diplomacia, os discursos nesses eventos são chatíssimos. Salvo raras exceções, que felizmente existem, são de dar sono. Num deles, enquanto a presidente repetia um discurso conhecido, de mais de meia hora, pelo menos dois ministros deram suas "pescadas". O primeiro-ministro da Índia também fechou os olhos. E não me pareceu uma meditação momentânea. Em Nova Dehli, a presidente ainda concedeu uma descontraída entrevista coletiva que, por culpa de nós jornalistas, acabou focada num economês e num diplomacês que interessam apenas a empresários e economistas. Fala-se muito no macro e se esquece do micro, aquilo que tem a ver diretamente com a maior parte da população brasileira.
A parte mais interessante acaba sendo nos deslocamentos de um lugar pra outro. É assim que vemos as cores, os rostos e a personalidade da Índia. Logo no primeiro contato, achei os locais extremamente simpáticos, bem mais, aliás, que os indianos que moram aqui em Londres. Em feiras livres, eles fazem marcação cerrada pra vender. Foi inevitável a comparação com alguns países árabes, onde a arte de vender também é levada muito a sério. A diferença é que, ao contrário dos árabes, os indianos são mais respeitosos, apesar de insistentes. O problema da violência existe, segundo me contaram alguns moradores. Mas não tive essa sensação em Nova Dehli, nem mesmo quando saímos tarde da noite pra jantar.
Bem próximo ao Parlamento, onde também gravamos parte de uma reportagem, há um gramado enorme,
onde milhares de indianos aproveitam o entardecer. É tudo sempre muito colorido....
... um lugar pra curtir um pouco a preguiça. Por que não ?

Nosso transporte principal em Nova Dehli foi esse aí:
Numa das noites, procurávamos um cenário bonito pra gravar parte da reportagem. O motorista do Tac Tac nos levou a um templo hindu, que fica no centro de Nova Dehli. É um templo dos sicks, aqueles que usam turbante, não bebem, não fumam, não cortam a barba e nem o cabelo e são vegetarianos. Claro que há exceções nessa regra. No pouco tempo em que estivemos lá, tivemos de tirar os sapatos e lavar os pés pra entrar num lugar onde um grupo de homens canta noite e dia uma espécie de mantra. É um lugar interessantíssimo, onde pobres e ricos tem os mesmos direitos e os mesmos deveres. Essa é uma das histórias que deixei pra trás, sem tempo de contá-la melhor. A foto ao lado foi tirada de um celular. Apesar de imagens serem liberadas, não me senti a vontade (nem tinha muito tempo!) pra fotografar aquelas pessoas num momento que exige tanto respeito.
No último dia de viagem, quando quase viramos 24 horas trabalhando, o nosso destino foi Acra, onde fica o Taj-Mahal.

Se o monumento, construído no século XVII pra ser o túmulo da esposa de um Imperador já é sensacional, o caminho até ele é ainda mais interessante. Antes do caminho, um detalhe me chamou a atenção. Há preços diferentes para turistas estrangeiros, que pagam mais caro. São 750 rúpias, o equivalente a 26 reais. Por conta disso, os indianos têm que enfrentar filas que os estrangeiros não enfrentam. A placa a seguir é a prova dessa segregação.
Nessa outra placa, o aviso é o seguinte: "Entrada somente para os tickets com valor mais alto". É ótimo não enfrentar filas, principalmente num país com tanta gente. O difícil é se sentir uma espécie de "gringo adinheirado e privilegiado". Isso não foi bacana.
Como eu dizia antes, o caminho até o Taj Mahal é um banho de Índia, mas que tem sim suas armadilhas. Todos os guias param propositadamente num canteiro central onde dezenas de indianos aparecem com macacos treinados pra fazerem o turista rir. Uma vez alegre, o sujeito é intimado a dar algumas rúpias pela "diversão". Claramente, os macacos são mal tratados.
Tirando essa parte extremamente contaminada pelo que há de pior no turismo, o resto da viagem é recheada de cenas interessantes. É um banho de Índia. E dá pra ver outros animais, livres e exuberantes, como esse pássaro.
O detalhe é que a viagem de 220 quilômetros costuma durar até sete horas ! Pela foto abaixo, fica fácil entender o porquê.
É o caos que, aparentemente, funciona. Atrasa todo mundo, mas funciona.
Num país com tanta gente, não é difícil encontrar os tac-tacs, motos convertidas em pequenos veículos e com duas rodas atrás, completamente lotados.

E a vaca ? Sim, ela é sagrada e ninguém a ameaça, nem mesmo em lugares onde a fome é um problema.
Outra cena que me chamou a atenção é o carinho com que os homens se tratam na Índia. A cena abaixo é de um grupo de estudantes que visitava o Taj-Mahal.
E a próxima cena é de dois amigos, que jogavam conversa fora. Homens de mãos dadas também podem ser vistos com muita frequência nos países árabes.
Na Índia, até a pobreza tem um lado místico. Claro que quem não sofre com ela, como eu, vê isso mais facilmente. A foto a seguir é de um indiano que tomava banho e lavava suas roupas numa espécie de tanque público. O país ainda tem 40% da população vivendo abaixo da linha da pobreza. Eram 60% na década de 80. Assim como o Brasil, eles também conseguiram aumentar a classe média, mas ainda tem um caminho enorme pela frente, talvez mais complicado que o do Brasil.
Esses são só alguns detalhes que não tem a menor pretensão de resumir a história de um mundo grandioso como é a Índia. Pra quem gosta de se aventurar, de ver uma sociedade funcionando com outra engrenagem, vale muito a pena.