O fato é que se o Brasil conseguiu acumular muitas riquezas não conseguiu ainda fazer um dever de casa que os ingleses fizeram há tempos: distribuí-las. Não que os britânicos sejam todos ricos. Não são. Aliás, a maioria enfrenta uma dificuldade cada vez maior nessa economia de mercado em que bancos e mercados têm mais importância que gente, realidade que nós estamos carecas de conhecer.
Mas vamos aos números. O país que agora é a sexta economia do mundo ocupa posições vergonhosas quando o volume de riquezas produzidas é dividida entre seus habitantes. Esse é o PIB per capita, uma conta feita por vários organismos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial. No ranking dos dois, o Brasil ocupa as posições 71 e 63. O Reino Unido está, respectivamente, nas posições 20 e 16. O Brasil fica atrás de países como Romênia (61 e 51), Venezuela (53 e 43), Trinidad e Tobago (37 e 32) e até da economicamente insignificante São Cristóvão e Nevis (55 e 44), uma pequena ilha caribenha.
O que esses números não muito precisos e possivelmente defasados mostram é que a desigualdade entre os ingleses e entre muitos outros povos é muito menor que entre os brasileiros, embora agora a nossa economia seja "maior" que a da maioria. O que muitos podem esquecer é que os nossos problemas também são muito grandes.
O perigo dessa notícia que atiça o orgulho nacional é a cegueira que ela pode gerar. Mais importante do que termos um bolo enorme é que todos consigam comer um pedacinho digno. O "adversário" que acabamos de ultrapassar na tabela do campeonato econômico conseguiu fazer isso, enquanto nós brasileiros nos afogávamos num imenso oceano cheio de corruptos, ditadores e incompetentes. Tudo bem que o fermento do bolo inglês não anda funcionando muito bem, mas por aqui, ao contrário do Brasil, a maioria já tem um pedacinho garantido.



Pois é, desde a época da ditadura militar o argumento era: "primeiro é preciso crescer o bolo para depois distribuir". O bolo já cresceu, mas acho que lamberam todo o glacê, fatiaram para poucos e a maioria continua disputando migalhas... Paula Rangel
ResponderExcluirEstou ouvindo na Europa o tempo todo sobre o "exemplo brasileiro" e isso me preoculpa muito. Cheguei ao Brasil e os " exemplos" que vejo sao :
ResponderExcluirCorrupcao
Violencia
Precos absurdos
Perfeito, Utsch!
ResponderExcluirEu só gostaria de acrescentar mais uma pitada. Não adianta crescer num ritmo acelerado se esse crescimento não tiver qualidade. O Brasil ainda padece de um mal que assola mais os pobres do que os ricos: a inflação. Apesar de ela estar (felizmente) bem distante do que vimos nos anos oitenta e início dos anos novente, o patamar de seiusis por cento é extremamente alto para os padrões das maiores economias mundiais. Crescer a custo de mais inflação só aprofunda mais a nossa maior mazela: a desigualdade social.
Grande abraço. O teu texto, como de hábito, está brilhante!
Edison Torres
Sérgio, querido, nem preciso dizer o quanto adoro seu texto, né. Esse estilo claro e direto que a TV acaba nos ensinando, misturado com a elegância nos argumentos e com a informação precisa! E eu nem sabia que vc andava escrevendo por aqui... Vou ler sempre.
ResponderExcluirEssa é a realidade brasileira. Talvez o problema do Brasil não seja crescer, mas sustentar esse crescimento e mais difícil ainda, distribuir o famigerado bolo. A arrecadação de impostos cresce em proporção geométrica, ao passo que os investimentos em áreas prioritárias crescem em proporção aritmética. O que significa crescimento econômico, então????
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